Roceci Vesçalgon Rabreiso

O escrivão que odiava romeiros: o anagrama escondido em um livro de óbitos de 1913

Há descobertas que não vêm em certidões de batismo ou inventários.
Vêm escondidas em rabiscos de última página.

Foi assim que, ao folhear um livro de óbitos da Matriz do Crato, encontrei algo que não registrava morte alguma — mas revelava um conflito inteiro.

No final de uma página, estava escrito:

Meus senhores, o Joazeiro não pode mais ter religião por cauza desta romeirada senvergonha.
Deus permita que o bispo amaldicoi este lugar com energia e que seja ouvido por Deus nosso senhor Jesus Christo Deus e homem verdadeiro pastor das almas perdidas Redemptor do mundo inteiro.. está concluida a questão dos romeiros com as da Terra.

Fim

O escrivão

Roceci Vesçalgon Rabreiso

Joazeiro, 3 de janeiro de 1913

A assinatura chamava atenção: Roceci Vesçalgon Rabreiso.

Nome estranho demais para passar despercebido — e estranho o suficiente para merecer desconfiança.

Quem trabalha com registros antigos aprende cedo: quando algo não faz sentido, provavelmente foi feito para não fazer.

Separei as sílabas. Testei combinações. Inverto, reorganizo — até que o padrão surgiu:

Cícero Gonçalves Sobreira.

O escrivão, irritado com os romeiros de Padre Cícero Romão Batista, preferiu esconder-se em um anagrama.

Em 3 de janeiro de 1913, o contexto era tenso. O bispo do Crato havia proibido as romarias ao Juazeiro.
O povo desobedecia. A fé popular crescia.
E parte da elite local reagia com indignação.

O desabafo não foi escrito em carta, nem em sermão — mas escondido à margem de um livro oficial.
Quase como quem precisa falar, mas não pode ser identificado.

Mas a história não termina aí.

Ao investigar a família, encontrei os Sobreira, um clã tradicional do Cariri.
Entre eles, o Padre Azarias Sobreira Lobo, responsável por registrar a genealogia da família em estudos publicados na Revista do Instituto do Ceará (vol. LX, 1946, págs. 20–41).

Foi ali, na página 42, que reencontrei o nome do escrivão anagramático:

Cícero Gonçalves Sobreira aparece como filho de Moisés Gonçalves de Andrade e Bernardina Gonçalves Sobreira. Moisés, por sua vez, era filho de Maria Dias Sobreira e Antônio Joaquim de Sousa — e Maria Dias era uma das catorze crianças de Joaquim Gonçalves Sobreira e Josefa Maria de Jesus Dias Sobreira, os patriarcas da família Sobreira no Ceará.

O próprio Padre Azarias Sobreira era filho de Carolina Augusta Sobreira, também filha do mesmo casal patriarcal. Ou seja: Carolina e Maria Dias eram irmãs. Portanto, Cícero Gonçalves Sobreira era primo de segundo grau do Padre Azarias Sobreira — o mesmo sacerdote que, décadas depois, escreveria a história da família onde o nome do escrivão estava registrado.

E aqui surge a ironia que só a genealogia revela:

O mesmo padre que o escrivão desejava ver amaldiçoado (afinal, o anagrama fora escrito contra as romarias de Padre Cícero, e Azarias era membro da elite católica local) ajudou a preservar a história da família dele — sem jamais saber que aquele rabisco escondia um parente.

Mas há mais.

O escrivão que odiava romeiros não era um desconhecido qualquer. Ele nasceu no dia 9 de abril de 1895 e foi batizado em 16 de junho de 1895, conforme registrado no livro de batizados da cidade de Aurora – CE (setembro de 1888 a dezembro de 1897, página 78). Era filho legítimo de Moisés Sobreira de Andrade e Bernardina Gonçalves Sobreira. Seus padrinhos de batismo? Nada menos que Padre Cícero Romão Batista e Nossa Senhora (representada, segundo o costume, por uma madrinha ou pela fé depositada na própria Virgem).

Sim: o mesmo homem que, aos 17 anos, desabafaria contra os romeiros de Juazeiro, foi batizado aos braços do santo que eles veneravam.

E o destino final de Cícero Gonçalves Sobreira? A genealogia do Padre Azarias registra, secamente: “ainda jovem, seguiu para o Amazonas, nunca mais tendo dado notícias”.

Desapareceu na floresta. Levou consigo sua raiva, sua fé contraditória — e o segredo do anagrama.

As linhas genealógicas mostram que esses personagens não estavam distantes — estavam entrelaçados.

Família, como sempre, não é linear.
É um emaranhado de alianças, tensões e contradições.

Moral da História

Livros de óbito não guardam apenas os que morreram.
Guardam também os vivos — suas raivas, seus disfarces e suas derrotas.

Às vezes, mais do que datas e nomes, eles preservam vozes.

E são essas vozes — escondidas, tortas, quase apagadas — que ainda têm algo a dizer.

É por isso que continuo:
Lendo, desconfiando e trazendo essas histórias de volta.

ceicero gonçalves sobreira
batizado cicero gonçalves sobreira

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